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Fernando Farinha

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 Jorge Machado

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Biografia

Fernando Farinha, o “miúdo da Bica”, nasceu no Barreiro, mas para o fado, foi na Bica, em Lisboa, onde se estabeceu o seu pai como barbeiro. Quando Fernando Farinha veio viver para a Bica teria seis anos, fiando-nos num cruzamento de fontes, e colocando totalmente de parte o famoso fado “Eu, ontem e hoje”, no qual Fernando Farinha se propõe contar a sua “história realista”, apontando o ano de 1929 como o do seu nascimento, o que está incorreto. Fernando Farinha terá nascido a 20 de dezembro, mas de 1928, foi todavia registado em 1929, mas em termos de datas há alguma confusão do próprio Farinha. Por outro lado, no mesmo fado, Farinha afirma que é o quinto filho do casal, o que facto não corresponde à verdade.

A história realista de Fernando Farinha escreveu-se de facto com a autenticidade da sua interpretação,  nas inspiradas melodias que compôe, nos versos que gostava de escrever e que interpretou, e deu a outros colegas como Amália Rodrigues, Maria Teresa de Noronha ou Fernanda Maria, para os cantar, e, menos conhecido do público, nas suas caricaturas.

A lista dos seus êxitos é longa, e citamos alguns: “A minha apresentação”, “Belos tempos", "Amor de mãe", "Deus queira", "É pá do Fado", “Aninhas”, “Cinco bairros”, “Guitarra triste”,“Fado das trincheiras”, “Menina do rés-do-chão”, “Guitarras de Lisboa”, “Eterna aamizade”, “Ti'Ana da fava rica”, “Vida da minha vida”, “Um copo mais um copo”, “A rir e a brincar” e “Eu quis demais”. Na Estoril Discos, de Manuel Simões, estão contabilizados sete temas.

Fernando entrou para a primária aos sete anos e, segundo fontes por nós consultadas, terá contactado com Padre Francisco da Cruz (1859-1948), conhecido pela sua bondade, e que veio a ser grande amigo do Fernando, e terá contribuído para a sua formação. Por esta altura, em 1935 foi mascote da marcha popular da Bica. Entre as suas brincadeiras de criança, ainda sobrava tempo para o seu passatempo preferido: o Fado. Os seus primeiros admiradores foram os companheiros de escola e os moradores da Bica, onde existia um clube, o Marítimo Lisboa Clube, do qual era presidente Manuel Sá Esteves, negociante de peixe e poeta popular, conhecido por “Manuel Calmeirão” devido à sua grande estatura. Aí no clube, Fernando cantarolava de vez em quando.

Manuel Calmeirão teve conhecimento de um concurso de fado entre bairros, na Verbena de Santa Catarina, ou “dos Paulistas”, junto a igreja, da qual era proprietário o grande empresário do espetáculo José Miguel (1908-1972). Nessa época havia muitos concursos entre os bairros, e um deles era dedicado aos miúdos, e Manuel Calmeirão lembrou-se de Fernando Farinha, que apanhado de surpresa, ficou contente, mas havia um problema, o pai, o senhor André que não parecia nada satisfeito com essa ideia, e embora contrariado, lá deu a autorização. Foi um sucesso, o público não o deixava abandonar o estrado, tendo ficado em 1.º lugar. O vencedor foi o “Miúdo da Bica”, epíteto que nunca mais o largaria, nem imaginaria na altura, que era o primeiro passo para uma grande carreira profissional.

José Miguel reparou logo nas suas capacidades e tentou fazer um contrato que o pai, que não autorizou, pois a carreira artística colocaria em risco o seu grande sonho da continuação do negócio pelo filho, e só o autorizava a cantar de vez em quando numa ou noutra verbena, espaços ao ar livre de espetáculo, muito populares na época. Quando tinha 11 anos, Fernando Farinha ficou órfão, com tudo o que acarretava, na época, designadamente, a perda de quem garantia o sustento da família, que ficava sem recursos. Viveram momentos duros, e Fernando ficou na posição difícil do “homem da casa”, a quem coube algumas responsabilidades porque as irmãs, mais velhas, e a mãe, não podiam manter esse encargo. Corria o ano de 1940, e foi convidado a gravar o primeiro disco da carreira, cujo alinhamento é constituído por “Meu destino”, “Tem juízo rapaz”, “Descrença” e “Sempre linda”.

O primeiro contrato de Fernando Farinha foi com a pessoa que tinha sido  seu admirador desde a primeira hora, e foi também o primeiro estender-lhe a mão. José Miguel desde a sua estreia aos sete anos na Verbena dos Paulistas, nunca deixou de o acompanhar. Fernando Farinha começou por ganhar 50$00 por noite, o que na época era apontado como um bom ordenado, e desta forma ajudava nas despesas da casa, como ele próprio o conta ao Álbum da Canção, de 01 de maio de 1963. Depois do Café Mondego, Fernando atuou no Retiro da Severa, que pertencia ao Café Brasileira, e, mais tarde no Solar da Alegria, Café Latinoetc.. Em 1941, o jornal Canção do Sul de 01 de junho apontava-lhe, em primeira página, a “intuição precoce” para o fado. Com 13 anos estreou-se como atração nacional no Teatro Maria Vitória, na revista “Boa vai ela”, do empresário António Macedo, sendo seu secretário Giuseppe Bastos, que pagou ao pequeno Fernando, um “cachet” de 100$00 por noite. O público aplaudia com calor cada vez que subia ao palco para cantar os seus fados, os do disco que tinha gravado aos 11 anos. Depois do teatro, Fernando Farinha voltou a atuar nas casas típicas, numa ronda constante, hoje uma, amanhã outra, não deixando por isso de ir até aos Paulistas, de onde guardava gratas recordações. Pode dizer-se que Fernando Farinha não teve meninice nem mocidade, porque passou cedo a ter responsabilidade de chefe de família. Quando começou a interessar-se pelo fado, os intérpretes que mais admirava eram Alfredo Marceneiro (1891-1982) e Filipe Pinto (1905-1968), cujas pegadas tentava seguir.

Em 1948, com 19 anos, preocupado com o seu futuro, e em melhorar a vida, conseguiu através de amigos verdadeiros arranjar um emprego na companhia de seguros Bonança, e a ideia era conciliar o novo emprego estável com a vida artística que embora ativa, estava ainda longe do êxito que veio a ter mais tarde. Todavia, era-lhe muito difícil manter os dois compromissos, e assim sendo, para não deixar os amigos ficarem mal, desistiu do emprego na seguradora e dedicou-se só ao fado. Depois de alguns anos de luta constante veio a maioridade, aos 21 anos,  eo serviço militar obrigatório, não lhe tendosido dado excusa ao abrigo do regulamento, por amparo de mãe, mas este acabou por lhe ser dado, após o juramento de bandeira. Voltou à vida artística, e foi durante um espetáculo de carnaval no Café Luso, que conheceu Lucinda Maria,  com quem casou em 1951; desta união não houve descendentes.

Também em 1951 assinou o seu primeiro contrato internacional, de muitos que mais tarde se seguiram. Foi contratado para atuar no Brasil, nas rádios Tupi e Record, em São Paulo, tendo alcançado enorme êxito. Para o seu sucesso no Brasil, onde esteve quatro meses, muito contribuiu o programa “Retiro da Severa”. Porém as saudades da pátria e da família eram muitas e regressou sem se despedir, não fosse alguém impedir a sua partida, como já tinha acontecido mais de uma vez. Quando chegou a Lisboa, Fernando Farinha passou a fazer parte do elenco da Adega Mesquita, que pertencia ao Mesquita e à tia Adelina, pessoas muito estimadas por todos os artistas. Esta era uma das mais antigas casas de Fado do Bairro Alto, por onde passaram as melhores vozes e músicos de fado; foi tal o seu agrado, que se manteve no elenco até 1961. Em 1955 foi distinguido com a Guitarra da Prata, pela Casa da Imprensa. Durante dez anos atuou na Adega Mesquita, onde ganhava 250$00 por noite, o que nessa época era visto como um ordenado de príncipe. Os contratos começaram a aparecer e Fernando Farinha não podia estar “preso” a uma casa de fados diariamente, além de que a ex-Emissora Nacional não o dispensava da sua programação, o que contribuiu para ser conhecido em todo o país. Fernando Farinha não tinha mãos a medir e tornou-se num sucesso, o que as vendas de discos confirmavam, justificando o elevado número de gravações que efetuou. O seu público era absolutamente transversal, quer em termos etários, quer sociais. Foi, efetivamente, dos artistas com mais nome e mais estimado pelo público. Em 1957 Fernando Farinha ganhara o título da “A voz mais portuguesa de Portugal”, através de uma votação organizada pela Rádio Peninsular, e nesse ano, com o aparecimento da televisão em Portugal, a sua popularidade aumentara, tendo protagonizado muitos programas de fado e era uma dos artistas mais regulares num programa de grande popularidade, “Melodias de sempre” apresentado por Jorge Alves (1914-1976).

Entreanto, em 1961, o último ano de atuações regulares de Fernando Farinha na Adega Mesquita, a revista Plateia organizou o concurso de Rei da Rádio, cujo vencedor foi o cançonetista António Calvário, tendo Fernando Farinha ficado em 2.º lugar. O espetáculo de “coroação” aconteceu no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. No dia 06 de maio de 1961 Fernando Farinha celebrou as Bodas de Prata no Coliseu dos Recreios, com casa cheia e um óptimo espetáculo, no qual participaram artistas de teatro, do fado, da rádio e da televisão, testemunho de apreço e da consideração que tinham pelo colega Fernando Farinha. No ano anterior, recebeu no Palácio de Cristal, a Medalha de Ouro dos Artistas Nortenhos. Em 1962 conquistou o título de Rei da Rádio, Fernando Farinha foi o primeiro e único fadista a conseguir esse feito, um título que lhe foi entregue num grandioso espectáculo no Éden Teatro, em Lisboa. Ainda no mesmo ano, num festival organizado pelo Casino Estoril, ganhou o “Disco de Ouro” e foi convidado como atração nacional, entre outras para a revista “Sal e pimenta”, levada à cena no Teatro ABC, do seu amigo, José Miguel. No ano seguinte, Fernando Farinha recebeu o Óscar da Imprensa para o melhor fadista, troféu atribuído por votação dos mais destacados jornalistas, numa organização da Casa de Impressa. Data deste ano a sua estreia no cinema, relatando em filme a história da sua vida. O filme intitula-se “O miúdo da Bica”, e foi realizado por Constantino Esteves. Em 1964 protagoniza “A última pega”, também realizado por Constantino Esteves, e que contou no elenco com Leónia Mendes, Vicente da Câmara e Júlia Buisel, entre outros. Filmes portugueses que tiveram sucesso, em parte devido aos fados de sua autoria, que interpreta.

Gravou o primeiro disco aos 11 anos, na década de 1940, e nos anos 1960 já contava com 30 discos de 78 rotações por minuto (rpm), 40 de 45 rpm e seis de 33 rpm, num total de 76 discos gravados, não contando com as cassetes que gravou com o conjunto de guitarras de Jorge Fontes. Em 1967 realizou uma digressão a Buenos Aires com o seu guitarrista privativo Manuel Mendes (1943-2009), tendo ambos sido os autores do Hino do Clube Português de Buenos Aires. Nesta altura Fernando Farinha, tal como o seu colega Manuel Fernandes, tornou-se proprietário de uma tabacaria, em Campo de Ourique, na rua Almeida e Sousa, que mantetve até finais da década de 1970.  Em março de 1971 Fernando Farinha e Estela Alves fazem uma evocação do quadro “Fado”, de José Malhoa, na Adega Mesquita. No dia 03 de julho de 1974 juntamente com Amália Rodrigues, Maria Dulce, Simone de Oliveira, entre outros, lideram uma marcha desde o Coliseu dos Recreios até à praça de Camões, sob o lema “A canção está na rua”. Nesta década, após o 25 de abril de 1974, fez parte do núcleo fundador da Cantar Abril – Cooperativa do Espetáculo Popular, que incluiu,entre outros, Helena Isabel, e Paulo de Carvalho. Em 1983, sem sinais de vontade em travar a carreira, embarca na sua primeira digressão aos Estados Unidos, Canadá e Venezuela, anteriormente já actuara no Brasil e Argentina, além das ex-colónias portuguesas de Angola e Moçambique, na República Sul-Africana e Suazilândia, e também em vários países europeus para as comunidades emigrantes. Em 1986 celebrou no bairro da Bica o seu cinquentenário artístico.

Até agora temos referenciado o seu sucesso como intérprete, mas Fernando Farinho foi também um inspirado poeta, que foi cantado pelos maiores nomes do fado, cite-se Amália Rodrigues, Carlos Ramos, Maria Teresa de Noronha, Manuel de Almeida, Argentina Santos, Hermínia Silva, Fernanda Maria, Maria Amélia Proença, Carlos Macedo, e as cançonetistas Maria de Lourdes Resende e Mariete Pessanha, e muitos outros que admiravam a sua criatividade. Fernando Farinha, como poeta, fez parceria com o violista Alberto Correia, que foi um “casamento perfeito”, e ainda hoje são cantados pela nova geração alguns dos temas que essa dupla assinou. Uma outra das características de Fernando Farinha desconhecida do público em geral, é a de caricaturista. Com grande facilidade fazia caricaturas, principalmente dos colegas que com ele trabalharam.

A 12 de fevereiro de 1988 o fadista morreu em Lisboa, no hospital Egas Moniz, vítima de um enfisema pulmonar.

Texto: NCL

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