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Mural assinado por Smile, no Espaço Fernando Farinha (Rua dos Cordoeiros),

à Bica, inaugurado pela Junta de Freguesia da Misericórdia, no dia 29 de maio.

 

 

Fernando Tavares Farinha, o "miúdo da Bica", curiosamente, não nasceu em Lisboa, mas sim na industrial cidade do Barreiro a 20 de Dezembro 1928 e não a 05 de Maio como refere a biografia oficial.
"Baptizaram-no posteriormente. E foi essa a data que ficou nos documentos, mas ele festejava a 20 de Dezembro", esclareceu à Agência Lusa, a sua mulher, Lucinda Farinha.
Do Barreiro, muda-se com a família para o bairro lisboeta da Bica, em 1933, e aos sete anos ei-lo que já canta o fado.
"Comecei a cantar por brincadeira com a miudagem, os fados do Marceneiro, do Proença, e de outros", diria mais tarde a um matutino da capital.
Ainda menino vence três finais sucessivas de um concurso de fados para crianças na Verbena dos Paulistas na Calçada do Combro, em Lisboa. Vem daí o epíteto de "miúdo da Bica" que jamais o deixará de acompanhar num crescendo de popularidade.
Referindo-se a Farinha, o Conde de Sobral, poeta, dirá que era "o menino prodígio do fado que com menos de dez anos já cantava o fado como gente grande", lembra o Presidente da Associação Portuguesa dos Amigos do Fado (APAF), Luís de Castro.
Em miúdo era pois a atracção das festas do bairro, nomeadamente no "Clube Recreativo O Marítimo ", "Os Marialvas de São Cristóvão", "Os Marialvas da Graça" ou "Os Cinco Réis" e "Os Garrafinhas".
Em 1935 é a mascote da Marcha da Bica e participa na cegada "Amor do Pai". As cegadas de rua eram uma espécie de teatro ambulante, onde se contava uma história a permeio com fados.
O seu assinalável êxito pela cidade de Lisboa, onde já se multiplicavam os convites para ir cantar a festas e saídas "fora de portas" leva o empresário teatral António Macedo e Fernando Santos (autor teatral e jornalista) a convidá-lo para participar como "atracção nacional" na revista "Boa vai ela" no Teatro Maria Vitória, em Lisboa, onde ganha cem escudos por noite. Segue-se a revista "Os Magalas" no Teatro Apolo.
Grava, entretanto, um disco com dois temas, "Sempre linda" e "Meu destino", esta gravação vale-lhe a quantia de mil escudos, tinha então 11 anos!
O empresário José Miguel que pontificou no meio artístico da década de 1940, contrata-o para actuar nos seus "cafés-cantantes". O jovem Fernando surge assim nas "matinées" fadistas do Café Mondego, Café Latino, Retiro da Severa, Solar da Alegria e posteriormente no consagrado Café Luso.
A Inspecção Geral dos Espectáculos, em virtude da sua idade, autoriza, com carácter de excepção, a que cante "só até às 22:00 horas".
No final da década de 1940, e depois de uma curta paragem de dois anos, quando tinha 12 anos, o seu regresso às lides fadistas é "triunfal" no dizer dos jornais da época.
A voz de Farinha "está melhor que nunca", escreveu Neves de Sousa. Os contratos surgem de todos os lados e o "menino-prodígio" da Bica passa a ser artista assíduo do "Serão para Trabalhadores" da  ex-Emissora Nacional e em vários espectáculos-publicitários de Rádio.
O seu nome começa a ser conhecido do Minho ao Algarve, O fado, canção essencialmente urbana e lisboeta, torna-se mais conhecida em todo o país.
Em 1948 abre na calçada de Carriche, em Lisboa, uma casa de fados, "Nova Sintra". Experiência fugaz. Os contratos constantes para ir cantar fora de Lisboa serão o principal motivo para deixar a casa.

A fadista Julieta Estrela recorda "os muitos espectáculos que o Fernando tinha e que enchiam largos e praças de toiros".
Fernando Farinha parte então para o Brasil e Argentina. "No Brasil ganhou o mais prestigiado galardão o Zé Carioca ", lembra a sua mulher, adiantando: "Conheci o mundo com ele e era sempre muito bem recebido".
Regressa a Lisboa e durante 11 anos actua na Adega Mesquita ao Bairro Alto (Lisboa). "Os donos viam-no como um filho e ele gostava muito daquilo, mas os contratos para sair continuavam a chover", lembra Lucinda Farinha.
Fernando Farinha descobre-se então como poeta e assina letras para fados que inicialmente são musicados por Alberto Correia, Joaquim Luís Gomes, Ferrer Trindade, Carlos Dias e Artur Ribeiro.
Mais tarde comporá ele próprio as suas músicas. Ao todo serão 28 êxitos que "andaram de boca em boca", refere Luís de Castro.

Lucinda Farinha lembra "uma teimosia" do fadista que se recusou a cantar letras de Mário Martins, então produtor de uma editora discográfica.
"O meu marido não queria cantar os versos dele e disse-lhe frontalmente que só cantava o que compunha".
Em 1963, em pleno cume da sua carreira artística, protagoniza um filme quase auto-biográfico, "O miúdo da Bica", do realizador Constantino Esteves. Em 1964 assina com o dramaturgo Luís Stau Monteiro os diálogos de "Última pega" também por si protagonizada.
Nesta película frisavam-se virtudes com os toiros e o fado com uma desvelada mãe (a actriz Leónia Mendes, nos dois filmes) sempre atenta e velando por ele.
Jorge Leitão Ramos, crítico de cinema, não tem meias medidas e afirma: "Nesses dois filmes ele prova que é o pior actor do mundo".
Todavia o público acorreu ao Cine-Teatro Édem em peso e as duas películas foram um êxito de bilheteira. Mas o certo é que Farinha não mais voltou aos grandes planos.
A década de 1960 foi a sua "década de oiro". Recebeu vários troféus, e grava uma catadupa de discos que só Amália Rodrigues e Tony de Matos ultrapassaram.
É nesta década que recebe um disco de ouro, o popular título de rei da Rádio portuguesa, guitarra de prata, guitarra de ouro (duas vezes), "a voz mais portuguesa", óscar da imprensa para o melhor fadista, medalha de ouro dos artistas do Porto, medalha de ouro da Cidade de Buenos Aires, "o primeiro fado" atribuído em Angola, o fadista mais popular (em Moçambique) e ainda "rei da popularidade".
Realiza várias digressões pelo país e pelo estrangeiro. Por duas vezes faz a chamada "volta ao Império" percorrendo as várias ex-Colónias portuguesas. Lucinda Farinha lembra quão "doloroso era para o fadista aquela realidade da guerra, dos estropiados. Certa vez, em Angola, cantou de óculos escuros e conforme cantava escorriam-lhe as lágrimas". Nesta década volta ainda à revista para ser a "atracção nacional" de "Com sal e pimenta" no Teatro ABC.
Na década de 1970 a popularidade de Fernando Farinha parecia intocável, o público continuava-lhe fiel. As "tournées" sucediam-se: Bélgica, França, Estados Unidos, África do Sul, Alemanha (ex-Democrática e Federal), Inglaterra, Brasil e Argentina.
"Vinha gente de todo o lado para o ouvir cantar", recorda a mulher.
Todavia as opções políticas do fadista acabariam por lhe toldar a popularidade embora continuasse a ter "aquela figura de rapazinho, com aquela voz linda, uma das melhores do nosso fado", como afirmou o jornalista e escritor Neves de Sousa. Para Neves de Sousa "o antigo intérprete de fados que enalteciam (incrementando-a) a presença de Portugal em África, Fernando Farinha não teve o brilhante epílogo de carreira a que poderia aspirar, talvez por isso
mesmo: pelo choque de consciência que se seguiu ao 25 de Abril" de 1974.
O actor Rogério Paulo consideraria que foi a "honestidade e honra de um artista que assumiu posição quando a liberdade chegou a Portugal".
Farinha não cantou apenas poemas seus mas também deu voz a grandes poetas: Carlos Conde, João Linhares Barbosa, Artur Ribeiro, Frederico de Brito, Pedro Homem de Melo, José Carlos Ary dos Santos, César de Oliveira ou Paulo da Fonseca.
O fadista viria a falecer, vítima de cancro no pulmão, no dia 12 de Fevereiro de 1988, pelas 15:00, no Hospital Egas Moniz, em Lisboa.
Rogério Paulo afirmou que "nos delírios da febre cantava os fados que tinham sido êxitos sem medida".


Por Nuno Lopes, da Agência Lusa, publicado a 10 de fevereiro de 1998.

Fotos: Nacal/FMS

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A Junta de Freguesia da Misericórdia, em Lisboa, realiza, no próximo domingo, dia 29 de maio, às 19:00, no bairro da Bica, uma sessão de fados em homenagem ao fadista Fernando Farinha (1928-1988), criador de êxitos como “Fado das trincheiras”, conhecido como “o miúdo da Bica”.

Nascido no Barreiro, Fernando Farinha viveu naquele bairro lisboeta desde menino, e venceu o primeiro concurso de fados aos seis anos, na verbena de Santa Catarina, tendo ficado conhecido como “o miúdo da Bica”, título escolhido para um filme sobre a sua vida, realizado em 1963, por Constantino Esteves.

A sessão conta com a participação dos fadistas Artur Maia, Isaura Nunes, Kátia Tinoco, Virgílio Barata, Rafaela Ribeiro, Sónia Silva, André Pereira e Luís Morgado, acompanhados por Paulo Silva (guitarra portuguesa) e Augusto Soares (viola).

A sessão antecede a inauguração da exposição sobre Fernando Farinha, “A voz mais portuguesa de Portugal”, na quarta-feira, às 18:00, no Espaço Santa Catarina (Palácio Cabral), organizada pela Associação Portuguesa Amigos do Fado, com documentação inédita do fadista, que foi também letrista, compositor e caricaturista, e apoio da Fundação Manuel Simões.

 

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Recorde-se que Fernando Farinha gravou na década de 1950 para a Estoril Discos, da qual a Fundação é detentora do seu espólio e proprietária da etiqueta.

A divulgação desta exposição levou ao encontro de várias boas-vontades, designadamente de Nuno Siqueira que disponibilizou várias peças da sua colecção particular, entre outras, capas de discos, recortes e o programa da celebração das bodas de prata do fadista, no Coliseu dos Recreios, e do antigo empresário do fadista, Manuel da Graça, que por sua expressa intenção, o Museu do Fado/EGEAC emprestou um retrato a óleo do criador de “Apresentação minha”, que estará patente na exposição.

https://www.facebook.com/fernando.farinha.5095

Foto: APAF/FMS

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